Eu juro que tentei, juro. Definitivamente tem algo errado com o Caio. Peguntava pra ele se seus pais não estavam preocupados, se ele não deveria voltar pra casa ou se a Larissa não estava desconfiando. Todas resultaram em apenas 1 única resposta : "Tá tranquilo, cara!". Estava me deixando louco de raiva, mesmo.
Inventei que precisava de um tempo pra mim e ele não deu a mínima. Falei pra ele sair e ele apenas disse "Haha, boa piada, mano!"
Mas daí eu estourei.
*...Depois...*
- Okey, cara, é o seguinte : Você tem 10 segundos pra arrumar suas tralhas e dar o fora. Não te aguento mais e não tô mais afim de te ver. Enjoei de você e do que você faz. Agora é sério, ou você sai por bem ou eu te enfio um soco na tua cara e te arrasto até um ponto de ônibus.- Suas piadas 'tão muito engraçadas, velho!
- Minhas piadas o caramba! Tô cansado da sua voz, do teu jeito de falar, das tuas roupas no chão, do teu cabelo, da tua cara e principalmente de você. Não vou entrar no pessoal porque vou perder meu tempo, então eu vou falar bem devagar pra você entender : SE. MANDA.
- 'cê não pode tá falando sério, man! Porque isso de repente? - ah, ele vai ver o de repente...
- De repente? DE REPENTE?! TÔ MANDANDO DAR O FORA A MUITO TEMPO, SEU OTÁRIO!
- Otário é você, "geladinho"! Com quem pensa que tá falando? Com uma garota-de-programa da esquina?! Eu vou te meter um soco na cara se não fechar o bico e ficar na tua! - nem dava ouvidos. Virei a cara esperando ele sair, o que não aconteceu.
- Olha pra mim, idiota! Fala o que você tiver que falar na minha cara, orfãozinho!
- "Orfãozinho" é você que não tem a atenção da mamãe! Quantas teu pai já trouxe esse ano? Doze, treze? O mundo não gira em torno de você, babaca, e se girasse, eu já tinha me matado à muito tempo! Dá o fora daqui! Aqui não é a tua casa, é a casa dos meus avós, e a única coisa que você fez foi usar a cama deles pro seu benefício!
- E se eu sair daqui? O que você vai fazer? Virar o garotinho chato e hiperativo que você era? Ha, não me faça rir, ninguém gostava de você até ficar órfão de tio, principalmente a idiota da Larissa que ainda acredita que eu sou santinho e perdi a virgindade com ela! Ainda se fosse a loira burra da Letícia, mas com ela tudo bem, tem cara de ser uma pu... - exagerou.
Levantei a mão pra dar um soco nele. Ele tinha passado dos limites e eu estava disposto a quebrar a cara dela ali e agora, mas pensei no que a Letícia me falou : "As pessoas vão comentar."
Mesmo que não seja essa a razão, se alguém aparecesse machucado todos comentariam e principalmente se for o Caio, que provavelmente inventaria uma história pra livrar a cara dele.
- Vai. - falei bem calmamente enquanto via o terror nos seus olhos - Se comentar com alguém isso, eu consigo provar que você não passa de um covarde.
Não disse nada, apenas correu porta à fora. Estava triste por acabar de perder um amigo, feliz pois tinha me livrado de um peso, irritado pelo que acabara de ouvir e insultado pelo que ele tinha me feito. Não compreendia bem minhas emoções no momento, apenas sabia que precisava relaxar e deixar o tempo passar. Com sorte, o meu namoro com a Letícia será a maior fofoca em comparação à minha briga com Caio.
*Semanas Depois*
Tudo havia mudado. Estávamos para nos formar, então várias pessoas mudaram seus visuais e seus estilos de vida para começarem uma nova fase.Larissa e Caio ainda namoravam, mais do que nunca. Toda vez que comenta de mim, Caio diz que foi um "desentendimento no futebol" ou "briga de homem". "Briga de homem" não é um parar de falar com o outro porque foi ameaçado... É tomar um tapa na cara pra aprender a ser homem ( Nota do Autor : Frase dita pelo professor de uma amiga ), arcar com as consequências e "bola pra frente".
Quem também estava com novidades era Samantha. Começou a namorar recentemente mas parecia que desejava aquilo à muito tempo. Estava muito feliz, já que tinha alguém pra dividir seu tempo, além de suas amigas. Obviamente, não é que ela não gostasse da companhia das meninas, mas é que cada uma estava com seus problemas, então...
O nome do moleque era Jack Cavallone. Filho de imigrantes italianos, ele, seu pai Ítalo e seu tio viajaram para essa cidade a ponto de esquecer seus passados mafiosos.( Nota do Autor : Sim, eu fiz uma pequena brincadeira com o grupo "Italobrothers". Quem conhece é gente fina. E não, não acho que todos os italianos são mafiosos, só acho os nomes deles bonitos.)
Faziam poucas coisas juntos, à ponto de não acelerar o namoro ou enjoar. Xadrez era o passatempo preferido de Jack, pois exercitava sua lógica e ele almejava em ser um grande médico.
Eu e Samantha ainda nos falamos, mas com pouca frequência. Os encontros que marcam eu nunca vou, para não atrapalhar Larissa, mas sempre convenço Letícia à ir sozinha. Não é maldade, só precaução.
Falando em nós, nunca pensei que falaria isso mas estamos muito bem. Achei que ela se cansaria de mim fácil ou que eu um dia contaria que só estava namorando ela porque eu não tinha o que perder. Essas coisas mudaram, parece que cada dia que passa eu gosto mais dela...
E a timidez dela por mim ainda não tinha parado. Eu achava graça então ela ficava mais constrangida ainda. Nunca gostou de demonstrar carinho perto das pessoas mas eu não estava nem ai, e arrastava ela junto. Eu não ligava mais se meus pais me abandonaram, se meu tio sumiu, se eu tinha perdido amigos ou se algumas pessoas me odiavam. Eu aprendi com o passado, vivo o presente e mudo o futuro (Nota do Autor : Não sei se isto é um ditado, uma amiga minha me disse isso uma vez e eu achei que combinaria.).
Ela só era tímida quando tinha pessoas em nossa volta, quando estávamos à sós, andando na praia por exemplo, ela não parava de sorri, contar piadas e correr, principalmente. Eu estava morto de cansaço e ela ainda tinha energia para zoar comigo.
O Capi também vai bem. Está prestes à se tornar um cachorro adulto, e estou ansioso por isso. Essa foto eu tirei alguns dias atrás, porque o Capi está em uma competição para cachorros adotados em Twinbrook, e ele ficará lá por mais uma semana. Perderei o aniversário dele, então é obrigado ele ganhar o prêmio.
Dormia muito bem nas noites. Fazia séculos que tinha algum pesadelo ou acordava com o Capi latindo. Era bem tranquilo, mas era nessas horas que eu sentia saudades da minha família...
Até que um dia eu acordei com um barulho de porta batendo. Levantei tentando enxergar no escuro mas não consegui.
Liguei o abajur e tive que fechar os olhos para me acostumar com a luz. Quando finalmente os abri, ouvi :
- Levanta.
Não, não, não, não, não, não, não, não e não! Nem nos meus piores pesadelos, NÃO! NÃO PODE SER, EU AINDA DEVO ESTAR SONHANDO!
- Isso é um sonho, só pode!
- Que sonho o que, garoto? Olha bem pra mim e diz se eu tenho cara de miragem? - reconheceram? Não?
- MIKE?! MAS... VOCÊ E O TIO DENIS... ACHEI QUE... VOCÊS TINHA SUMI...
- Fala baixo, é de madrugada... - Mike me interrompeu.
Mike era aquele cara loiro que tinha ido com meu tio procurar a tal criança na China.
- Difícil te encontrar, viu? Mudou de endereço, estilo...
- Mike, como você...
- Longa história, só te digo que escapei de uma armadilha das bravas!
- Então o tio Denis...
- Ele tá vivo, sim, mas não por muito tempo. Por um milagre eu fugi da morte e se demorarmos com essa conversa, seu tio não terá a mesma sorte.
- Vim aqui te perguntar se você vai comigo salvar seu tio e seus pais.
- Meus pais?! Eles também...
- Sim, se meteram numa grande enrascada. Mas olha, eu vim até aqui me aprontar e voltar, aquele lugar tirou parte da minha dignidade e eu pretendo recuperar.
- Então Damion, você virá comigo?
- Eu preciso pensar, Mike. É complicado...
- Então você não irá. Precisa se decidir agora!
- Eu...
- Vai ou não Damion?! Estou perdendo tempo precioso aqui!
E ele queria que eu fizesse essa decisão agora?! E tudo o que eu tenho?! Letícia, Capi, essa casa...
Não posso, não consigo, não vou, não devo, eu...
- Eu vou.
- Maravilha, quanto mais ajuda, melhor! Seguinte, eu vou pegar algumas roupas suas, cortar essa barba e cabelo rapidão, não temos tempo a perder!
Mas o que eu acabei de fazer? E o papo de "Não isso, não aquilo"?! Meu Deus, eu preciso de ajuda, eu preciso de uma solução, eu preciso acabar com isso, eu preciso...
Preciso achar minha família. Se eu tenho alguma chance de salvá-la, eu vou. Sempre sonhei que meu tio um dia voltaria e nunca me perdoei pela última conversa que tive com meus pais, mas antes faltava avisar uma pessoa...
- Atende, atende, atende, atende por favor!
- "Awn"... Dami, porque você tá ligan... - Letícia atendeu, graças a Deus.
- Me ouve, por favor. Eu estou indo pra China.
- O que?!
- Mike, amigo do meu tio, me disse que minha família ainda está viva e precisa de mim, eu não vou perder essa chance!
- Mas Dami, você ficou louco?! Você tá fazendo a mesma coisa que seus pais fizeram! Largando tudo pra trás por algo que você não tem certeza! Escola, amigos, Capi... EU!
- Flor, eu nunca... - já sei! Isso! - Vem junto!
- Agora você pirou de vez!
- É sério Letícia! Você mesmo disse que eu estou abandonando tudo, então me ajude e vá comigo!
- Eu precisaria pensar!
- Você não têm! Por favor, eu te imploro, eu não posso deixar minha família morrer nas minhas mãos mas me recuso à abrir mão de você depois de tanto tempo!
- Dami, eu...
- Vamos fazer o seguinte : Eu vou passar no nosso lago antes. Se você estiver lá, quer dizer que eu te convenci, se não, eu vou entender mas não sei se volto.
- Eu..
- Eu te amo, sua loira burra! - desliguei. Não conseguiria ouvir a resposta. Não agora.
Coloquei uma calça, um tênis de caminhada, um casaco sem manga e um gorro. Deixei as outras coisas no chão e minha cama desarrumada, não ligava, só precisava ir rápido.
- Pronto? Vamos, então.
- Espera, temos que passar em um lugar antes.
- Nem pensar, temos que...
- É rápido, e você disse que quanto mais ajuda, melhor, lembra?
- Beleza, beleza, vamos!
- Como?
- Eu vi uma caminhonete na garagem.
- Verdade, então não temos tempo à perder!
E tínhamos mesmo uma caminhonete. Grande o bastante para viajar. Mas antes, íamos passar no lago.
Mike estacionou a caminhonete no fim da estrada. Eu disse que já voltava e desci correndo do carro.
Cheguei debaixo da árvore e não tinha ninguém, apenas as plantas. De um lado eu entendia, avisei de última hora e era uma decisão importante, mas de outro estava triste porque queria que ela fosse.
Fiquei olhando pro nada por um bom tempo, e sabia que o Mike estaria estressado, então decidi voltar.
- Saco... - praguejei alto.
- Até parece que eu vou te deixar ir viajar sem mim. Ainda mais na China, que só tem mulher bonita.
Levei um baita susto quando ouvi a Letícia. Jurava que ela não iria vir ou que já me odiava.
- Vai ficar ai ou nós vamos? - ela já estava no ritmo.
- E seus pais? - perguntei enquanto a abraçava.
- Deixei um bilhete. Quando virem, provavelmente vão chamar a policia, mas não contei pra onde iríamos. Também vão ficar MUITO bravos, mas dai eu te obrigo a arcar com as consequências já que me tirou da minha cama.
- Beleza, por mim tudo bem. Mas se seus pais não me aceitarem, eu vou ter que te sequestrar.
Ela riu e me soltou devagar.
- Nós temos que correr! - gritei
- Já estou na sua frente! - ela estava brincando. Mike ficaria bastante irritado.
Avistamos Mike fumando no pé da estrada. Parecia impaciente, e com razão.
- 'VAMO LOGO PREGUIÇOSOS, EU TAVA QUASE INDO SEM VOCÊS!
- Calma, cara!
- Mike, essa é a... - iria apresentar a Letícia, mas fui interrompido.
- Apresentações depois, o tempo corre cara, 'vambora!
Entramos no carro e saímos em disparada, estávamos sem tempo e não sabíamos nem o limite. Rezava para não chegar atrasado.
E pensar que lá iria eu, procurar meu tio e meus pais e desvendar esse mistério. Espero que valha a pena, afinal, larguei tudo aqui. Rezo para que não seja um sonho distante, afinal, é agora ou nunca!

















































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